sábado, julho 28, 2012

O Pêndulo (Parte 2)

A esperança tem os seus quês de confusa. Inconsistente, até. Por horas, horas e horas esperara aqui, pendurado ao deus-dará, chegando ao limite de mim. Por horas esperara alguém, esperara ajuda, esperara qualquer coisa mais viva que aquelas pedras e aqueles arbustos que mexiam ao sabor do vento, sem vontade própria. Por horas e horas esperei, e aqui está agora a solução. Aqui está tudo o que eu mais desejara, e ainda assim nada do que esperava. É alguém. Um homem. Cinquentas e tais, barbudo e intelectual. É a típica pessoa que surgiria na minha mente se imaginasse um observador de aves. Aparentemente sereno, alheio ao resto mundo, calmo do fundo das suas barbas à espera que algum pássaro se digne a dar um ar da sua graça. Tem um chapeuzinho bege e óculos pendurados ao pescoço. Parece simpático, mas não forte…

A ajuda chegou. Mas agora, um dilema é oficialmente aberto na minha mente: se me parece óbvio que nenhuma outra opção se vislumbra para a minha salvação, que não tenho soluções senão a que agora se me apresenta, a verdade é que não me sinto capaz de confiar. Sei que não aguentarei mais uma hora aqui, e mais ajuda não chegará antes. Mil e um cenários vão-me passando pela cabeça… Por muitas voltas que dê à minha imaginação, não encontro soluções. As minhas mãos, suadas e sangrentas, continuam agarradas a esta pedra, a esta réstia de esperança, que espetada na carne me ajuda a sobreviver um pouquinho mais. Mais uma vez, o senhor oferece ajuda e estende a mão. Estou num beco sem saída… Chegou a hora da acção!

Muito a medo, começo a largar a mão esquerda do precipício para a estender. Com a mão esquerda quase solta, não demora até que a direita sinta o peso que suportava duplicar… Mais que nunca, o bicípite direito treme de esforço, vibra de desespero, endurece e sua. Mal descolo a mão esquerda, claramente lesionada, sinto-a cair. Sinto cada momento – o esforço para a separar daquela rocha, a gravidade a puxá-la para baixo, o raspar seco na pedra rachada e o balançar final; a incapacidade de a devolver ao alto… Uma e outra vez tento erguê-la, sem sucesso… Incrédulo, percebo que o meu cérebro já não comanda o meu corpo…

Sem a força necessária para erguer o braço, o desespero torna-se cada vez mais evidente. O fim está à vista… Depois de horas de olhos fechados, apenas interrompidas para espreitar o simpático senhor que agora me oferece ajuda, decido voltar a abrir os olhos, desta feita para olhar para baixo. A incredulidade num desfecho positivo dá-me vontade de enfrentar o futuro olhos nos olhos. Mirar aquelas rochas que, ainda esfomeadas após quatro vidas devorarem, me esperam como abutres em voo alto. Abro os olhos, feridos pela luminosidade. No entanto, não vejo o que esperava ver. Onde outrora havia rochas e corpos, havia agora água. Mar! A maré tinha subido… Cansado e subnutrido, não consigo perceber a profundidade desta água que violentamente embate no sopé da ravina. Uma vez mais, as dúvidas invadem-me… Incapaz de sequer erguer um braço, conseguirei chegar vivo à costa se me atirar e tentar nadar? Sorrio de forma marota perante o ridículo de tal cenário… As endorfinas já devem estar a bater forte… Incapaz de me elevar e consciente da minha incapacidade de nadar, sinto o meu corpo desistir.

A mão direita começa também a deslizar lentamente rocha abaixo, sendo rasgada aos poucos pelas afiadas saliências da rocha que por tanto tempo ali me sustiveram. Pronto para me oferecer à queda livre, sinto no entanto um aperto forte no pulso. Determinado e de feição assustada, o velhote segura-me com afinco. Incrível como nasce a coragem do aparente nada! Pena que coragem e determinação não sejam, no entanto, tudo. Ainda algo vidrado pela pasmaceira tornada heroicidade, apercebo-me do deslizar lento dos esforçados pés do velhote. Depois de concentrado, apercebo-me facilmente que a este ritmo, não tardaremos ambos a ir ribanceira abaixo. Isto, se o observador de pássaros conseguir, sequer, segurar-me até ao momento da sua queda. Consciente do mais-que-decidido final para toda esta história, decido que apenas uma morte, e não duas, se somem às quatro que lá em baixo se preparam para pernoitar. Antes de mais, sorrio-lhe como quem agradece. Depois, num golpe seco, liberto-me da sua mão estranhamente calejada e desfruto, finalmente, da tão-esperada queda-livre. Ainda que imóvel, sinto-me livre como nunca. Solto. Fresco. Puro…

Lá em baixo, o mar espera-me. Venha ele!

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